Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto
Bretas, nasceu na Cidade de Goiás no dia 20 de agosto de 1889 e faleceu na
capital goiana, Goiânia, no dia 10 de abril de 1985. Embora seu primeiro livro
– Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais - tenha sido publicado quando Cora
já contava com 76 anos, é considerada uma das mais importantes escritoras
brasileiras.
Você sabe quem foi Cora Coralina? Cora Coralina está entre
os nomes mais populares da poesia brasileira. Sua obra vem ganhando cada vez
mais destaque e admiradores, que fazem com que os versos da poeta goiana ganhem
projeção e a atenção de estudiosos da palavra. É comum encontrar textos de Cora
Coralina compartilhados nas diversas redes sociais, fato que comprova a
atemporalidade de sua poesia.
O nome curioso na verdade é pseudônimo de Ana Lins dos
Guimarães Peixoto Bretas. Cora nasceu na Cidade de Goiás, então Goiás Velho, no
dia 20 de agosto de 1889 e, embora seus primeiros escritos datem de sua
adolescência (aos dezesseis anos uma crônica de sua autoria foi publicada pelo
jornal Tribuna Espírita, do Rio de Janeiro), a poeta tornou-se conhecida do
grande público aos setenta anos de idade.
Livros a venda: Melhores obras de Cora Coralina – Saraiva
Quando teve seu primeiro livro publicado pela renomada
Editora José Olympio, Cora Coralina remeteu alguns exemplares para diversos
escritores, entre eles Carlos Drummond de Andrade, com quem trocaria, durante
anos, correspondências. Foi por intermédio do poeta que a poesia de Cora
Coralina ganhou projeção nacional; Aninha deixou de ser apenas uma doceira do
interior do Brasil e tornou-se uma importante voz literária.
A velha casa sobre a ponte do
Rio Vermelho, lugar onde Cora Coralina viveu os últimos anos de sua vida, foi
transformada, após sua morte no ano de 1985, no Museu Cora Coralina, um dos
pontos turísticos mais importantes da cidade que em dezembro de 2001 foi
reconhecida pelo Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade. O museu guarda
preciosos itens, entre eles as correspondências trocadas com o amigo Carlos
Drummond de Andrade. Para que você conheça um pouco mais da poesia de Aninha,
como a própria se autodenominava, o site Escola Educação selecionou quinze
poemas de Cora Coralina que farão você passear pelo universo lírico e pitoresco
de uma das vozes femininas mais expressivas da literatura brasileira. Boa
leitura!
Veja os 15
Melhores Poemas de Cora Coralina
Poema: O
cântico da Terra – Cora Coralina
O cântico da
Terra
Eu sou a
terra, eu sou a vida.
Do meu barro
primeiro veio o homem.
De mim veio
a mulher e veio o amor.
Veio a
árvore, veio a fonte.
Vem o fruto
e vem a flor.
Eu sou a
fonte original de toda vida.
Sou o chão
que se prende à tua casa.
Sou a telha
da coberta de teu lar.
A mina
constante de teu poço.
Sou a espiga
generosa de teu gado
e certeza
tranquila ao teu esforço.
Sou a razão
de tua vida.
De mim
vieste pela mão do Criador,
e a mim tu
voltarás no fim da lida.
Só em mim
acharás descanso e Paz.
Eu sou a
grande Mãe Universal.
Tua filha,
tua noiva e desposada.
A mulher e o
ventre que fecundas.
Sou a gleba,
a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó
lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado,
tua foice, teu machado.
O berço
pequenino de teu filho.
O algodão de
tua veste
e o pão de
tua casa.
E um dia bem
distante
a mim tu
voltarás.
E no
canteiro materno de meu seio
tranquilo
dormirás.
Plantemos a
roça.
Lavremos a
gleba.
Cuidemos do
ninho,
do gado e da
tulha.
Fartura
teremos
e donos de
sítio
felizes
seremos.
Poema:
Mulher da vida – Cora Coralina
Mulher da
vida
Mulher da
Vida,
Minha irmã.
De todos os
tempos.
De todos os
povos.
De todas as
latitudes.
Ela vem do
fundo imemorial das idades
e carrega a
carga pesada
dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e
ápodos:
Mulher da
zona,
Mulher da
rua,
Mulher
perdida,
Mulher à
toa.
Mulher da
vida,
Minha irmã.
Poema:
Aninha e suas pedras – Cora Coralina
Aninha e
suas pedras
Não te
deixes destruir…
Ajuntando
novas pedras
e
construindo novos poemas.
Recria tua
vida, sempre, sempre.
Remove
pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua
vida mesquinha
um poema.
E viverás no
coração dos jovens
e na memória
das gerações que hão de vir.
Esta fonte é
para uso de todos os sedentos.
Toma a tua
parte.
Vem a estas
páginas
e não
entraves seu uso
aos que têm
sede.
Poema:
Mascarados – Cora Coralina
Mascarados
Saiu o
Semeador a semear
Semeou o dia
todo
e a noite o
apanhou ainda
com as mãos
cheias de sementes.
Ele semeava
tranquilo
sem pensar
na colheita
porque muito
tinha colhido
do que
outros semearam.
Jovem, seja
você esse semeador
Semeia com
otimismo
Semeia com
idealismo
as sementes
vivas
da Paz e da
Justiça.
Livros a
venda
Melhores
obras de Cora Coralina – Saraiva
Poema: Assim
eu vejo a vida – Cora Coralina
Assim eu
vejo a vida
A vida tem
duas faces:
Positiva e
negativa
O passado
foi duro
mas deixou o
seu legado
Saber viver
é a grande sabedoria
Que eu possa
dignificar
Minha
condição de mulher,
Aceitar suas
limitações
E me fazer
pedra de segurança
dos valores
que vão desmoronando.
Nasci em
tempos rudes
Aceitei
contradições
lutas e
pedras
como lições
de vida
e delas me
sirvo
Aprendi a
viver.
Poema:
Considerações de Aninha – Cora Coralina
Considerações
de Aninha
Melhor do
que a criatura,
fez o
criador a criação.
A criatura é
limitada.
O tempo, o
espaço,
normas e
costumes.
Erros e
acertos.
A criação é
ilimitada.
Excede o
tempo e o meio.
Projeta-se
no Cosmos.
Poema: Mãe –
Cora Coralina
Mãe
Renovadora e
reveladora do mundo
A humanidade
se renova no teu ventre.
Cria teus
filhos,
não os
entregues à creche.
Creche é
fria, impessoal.
Nunca será
um lar
para teu
filho.
Ele,
pequenino, precisa de ti.
Não o
desligues da tua força maternal.
Que
pretendes, mulher?
Independência,
igualdade de condições…
Empregos
fora do lar?
És superior
àqueles
que procuras
imitar.
Tens o dom
divino
de ser mãe
Em ti está
presente a humanidade.
Mulher, não
te deixes castrar.
Serás um
animal somente de prazer
e às vezes
nem mais isso.
Frígida,
bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada,
fingindo ser o que não és.
Roendo o teu
osso negro da amargura.
Poema: Todas
as Vidas – Cora Coralina
Todas as
Vidas
Vive dentro
de mim
uma cabocla
velha
de
mau-olhado,
acocorada ao
pé
do borralho,
olhando para
o fogo.
Benze
quebranto.
Bota
feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba,
terreiro.
Ogã,
pai-de-santo…
Vive dentro
de mim
a lavadeira
do Rio
Vermelho.
Seu cheiro
gostoso
d’água e
sabão.
Rodilha de
pano.
Trouxa de
roupa,
pedra de
anil.
Sua coroa
verde
de
São-caetano.
Vive dentro
de mim
a mulher
cozinheira.
Pimenta e
cebola.
Quitute bem
feito.
Panela de
barro.
Taipa de
lenha.
Cozinha
antiga
toda
pretinha.
Bem cacheada
de picumã.
Pedra
pontuda.
Cumbuco de
coco.
Pisando
alho-sal.
Vive dentro
de mim
a mulher do
povo.
Bem
proletária.
Bem
linguaruda,
desabusada,
sem
preconceitos,
de
casca-grossa,
de
chinelinha,
e filharada.
Vive dentro
de mim
a mulher
roceira.
-Enxerto de
terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no
chão.
Bem
parideira.
Bem
criadeira.
Seus doze
filhos,
Seus vinte
netos.
Vive dentro
de mim
a mulher da
vida.
Minha
irmãzinha…
tão
desprezada,
tão
murmurada…
Fingindo ser
alegre
seu triste
fado.
Todas as
vidas
dentro de
mim:
Na minha
vida –
a vida mera
das
obscuras!
Poema: Eu
Voltarei – Cora Coralina
Eu Voltarei
Meu
companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do
próximo,
honesto e
simples, de pensamentos limpos.
Seremos
padeiros e teremos padarias.
Muitos
filhos à nossa volta.
Cada nascer
de um filho
será marcado
com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de
Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de
Ruth, a árvore de Roseta.
Seremos
alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas
panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma
fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos
o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro,
o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei
árvores para as gerações futuras.
Meus filhos
plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão
moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no
mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres,
ligados profundamente
ao trabalho
e à terra que os ensinarei a amar.
E eu
morrerei tranquilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal,
ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei…
A pedra do
meu túmulo
será
enfeitada de espigas de trigo
e cereais
quebrados
minha oferta
póstuma às formigas
que têm suas
casinhas subterra
e aos
pássaros cantores
que têm seus
ninhos nas altas e floridas
frondes.
Eu voltarei…
Poema:
Conclusões de Aninha – Cora Coralina
Conclusões
de Aninha
Estavam ali
parados. Marido e mulher.
Esperavam o
carro. E foi que veio aquela da roça
tímida,
humilde, sofrida.
Contou que o
fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que
tinha dentro.
Estava ali
no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho
e comprar suas pobrezinhas.
O homem
ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem
palavra.
A mulher
ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e
disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu
a bolsa.
Qual dos
dois ajudou mais?
Donde se
infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher
participa sem ajudar.
Da mesma
forma aquela sentença:
“A quem te
pedir um peixe, dá uma vara de pescar.”
Pensando
bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a
chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a
paciência do pescador.
Você faria
isso, Leitor?
Antes que
tudo isso se fizesse
o desvalido
não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática,
a teoria é outra.
Poema:
Ofertas de Aninha – Cora Coralina
Ofertas de
Aninha
(aos moços)
Eu sou
aquela mulher
a quem o
tempo
muito
ensinou.
Ensinou a
amar a vida.
Não desistir
da luta.
Recomeçar na
derrota.
Renunciar a
palavras e pensamentos negativos.
Acreditar
nos valores humanos.
Ser
otimista.
Creio numa
força imanente
que vai
ligando a família humana
numa
corrente luminosa
de
fraternidade universal.
Creio na
solidariedade humana.
Creio na
superação dos erros
e angústias
do presente.
Acredito nos
moços.
Exalto sua
confiança,
generosidade
e idealismo.
Creio nos
milagres da ciência
e na
descoberta de uma profilaxia
futura dos
erros e violências
do presente.
Aprendi que
mais vale lutar
do que
recolher dinheiro fácil.
Antes
acreditar do que duvidar.
Poema: Meu
destino – Cora Coralina
Meu destino
Nas palmas
de tuas mãos
leio as
linhas da minha vida.
Linhas
cruzadas, sinuosas,
interferindo
no teu destino.
Não te
procurei, não me procurastes –
íamos
sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes,
cruzamos
Passavas com
o fardo da vida…
Corri ao teu
encontro.
Sorri.
Falamos.
Esse dia foi
marcado
com a pedra
branca
da cabeça de
um peixe.
E, desde
então, caminhamos
juntos pela
vida…
Poema: Ainda
não – Cora Coralina
Ainda não
I
Ainda não…
É a espera.
Afirmação
do tempo que
vai chegar
no tempo que
está passando.
II
Ainda não…
É a
promessa.
Certeza
do tempo de
querer
no tempo que
vai chegando.
A mulher é a
terra —
terra de
semear.
III
Ainda não…
O tempo
disse dormindo:
Por que
esperar?
Plantar,
colher
no
amanhecer.
Não retardar
o instante
maravilhoso
da colheita.
IV
Veio o
semeador,
semearam
juntos
e colheram
o
encantamento do fruto.
Lamentaram
juntos
Retardamos
tanto… no tempo.
Poema: Amigo
– Cora Coralina
Amigo
Vamos
conversar
Como dois
velhos que se encontraram
no fim da
caminhada.
Foi o mesmo
nosso marco de partida.
Palmilhamos
juntos a mesma estrada.
Eu era moça.
Sentia sem
saber
seu cheiro
de terra,
seu cheiro
de mato,
seu cheiro
de pastagens.
É que havia
dentro de mim,
no fundo
obscuro de meu ser
vivências e
atavismo ancestrais:
fazendas,
latifúndios,
engenhos e
currais.
Mas… ai de
mim!
Era moça da
cidade.
Escrevia
versos e era sofisticada.
Você teve
medo. O medo que todo homem sente
da mulher
letrada.
Não
pressentiu, não adivinhou
aquela que o
esperava
mesmo antes
de nascer.
Indiferente
tomaste teu
caminho
por estrada
diferente.
Longo tempo
o esperei
na
encruzilhada,
depois…
depois…
carreguei
sozinha
a pedra do
meu destino.
Hoje, no
tarde da vida,
apenas,
uma suave e
perdida relembrança.
Poema:
Lua-Luar – Cora Coralina
Lua-Luar
Escuto leve
batida.
Levanto
descalça, abro a janela
devagarinho.
Alguém
bateu?
É a lua-luar
que quer entrar.
Entra lua
poesia
antes dos
astronautas:
Gagarin da
terra azul,
Apolo XI que
primeiro passeou solo lunar.
Lua que
comanda os mares,
a fúria dos
vagalhões
que vem
morrer na praia.
O banzeiro
das pororocas.
Lua dos
namorados,
das intrigas
de amor,
dos
encontros clandestinos.
Lua-luar que
entra e sai.
Lua nova,
incompleta no seu meio arco.
Lua
crescente, velha enorme, fecunda.
Lua de todos
os povos
de todos os
quadrantes.
Lua que
enfurece o mar e em chumbo,
acovarda
barcos pesqueiros.
O barqueiro
se recolhe.
O pescado
volta às redes.
O jangadeiro
trava amarras.
Gaivotas
fogem dos rochedos.
Lua
cúmplice.
Lésbica lua
nascente,
andrógina —
lua-luar.
Lua dos
becos tristes
das esquinas
buliçosas.
Luar dos
velhos.
Das velhas
plantas sentenciadas.
Do sopro
morto
dos bordões,
rimas, violinos.
Lua que
manda
na semeadura
dos campos,
na
germinação das sementes,
na
abundância das colheitas.
Lua boa.
Lua ruim.
Lua de
chuva.
Lua de sol.
Lua das
gestações do amor.
Do acaso, do
passatempo
Irresistível,
responsável,
irresponsável.
Lua grande.
Lua genésica
que marca a
fertilidade da fêmea
e traz o
macho para a semeadura.
O fruto
aceito —
mal aceito:
repudiado, abandonado,
A semente
morta
lançada no
esgoto.
A semente
viva palpitante
deixada em
porta alheia.
Luana Alves
Graduada em
Letras
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